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  • Foto do escritorLaura Albernaz

Depressão: Sintoma Social

"A depressão é a expressão de mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibicionismo e, como já se tornou chavão, do consumo generalizado. A depressão é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosamente, a teia de sentidos e de crenças que sustenta e ordena a vida social desta primeira década do século XXI" Maria Rita Kehl (Tempo e o Cão)


O último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a saúde mental publicado em 2022 indica um aumento dos casos de depressão, e alerta que essa é a principal causa para incapacidade laboral no mundo. Segundo o IBGE mais de 10% da população brasileira acima de 18 anos já foi diagnosticada com depressão, e o Brasil é o país com maior prevalência de casos da América Latina. Todas estas estatísticas confirmam uma tendência que observamos no nosso dia-a-dia. Muitos de nós já fomos diagnosticados com depressão, ou conhecemos pessoas que convivem com esse transtorno.


Diante desse aumento expressivo de casos, podemos nos perguntar: por que tantas pessoas estão deprimidas hoje em dia? Há sintomas que, por sua posição de desacordo frente a normatividade social, denunciam as contradições de uma época. No final do século XIX e início do século XX os sintomas histéricos denunciavam a repressão da sociedade patriarcal. As histéricas foram as primeiras pacientes de Freud e peça chave para a criação da psicanálise. No nosso tempo, os sintomas depressivos adquirem esse mesmo status de denúncia de condições sociais adoecedoras.


Nos constituímos no atravessamento de nossa história particular com a cultura e o tempo em que vivemos. Não podemos saber de antemão sobre os aspectos singulares da história de vida de cada pessoa que sofre com a depressão. Sobre isso, só podemos aprender através da escuta clínica, no caso a caso. Mas podemos olhar com mais atenção para a maneira como nossa sociedade se organiza, e procurar na cultura aspectos que nos ajudem a entender por que, cada vez mais, as pessoas estão deprimidas.


Um primeiro ponto que gostaria de destacar é o valor que a cultura do nosso tempo atribui às imagens. Cada vez mais a imagens predominam sobre as narrativas. É comum chegarmos a uma paisagem bonita, um ponto turístico, um show, e notarmos que todas as pessoas ali estão ocupadas em registrar essa experiência em vídeos e fotos. As fotografias capturam uma imagem estática em que todos aparecem sempre no seu melhor ângulo, na sua melhor versão. Apesar do movimento, os vídeos capturam imagens planejadas e não revelam os conflitos e contradições que ficam restritos aos bastidores. O destino desses imagens são as redes sociais, esses espaços de sociabilidade onde estamos constantemente nos comparando com imagens performáticas de perfeição. O excesso de juízo sobre si mesmo que acontece a partir dessas interações resulta numa dificuldade em investir afetivamente no mundo externo, provoca um esgotamento e uma incapacidade de encontrar prazer.


As imagens são fragmentos incompletos da experiência e traduzem a dificuldade que temos, enquanto sociedade, de transformar nossas experiências em narrativas que podem ser compartilhadas coletivamente. Vivemos de modo descritivo, e experiênciamos a vida como uma lista de tarefas. Fazer uma viagem, conhecer um restaurante, conseguir uma posição no trabalho, concluir um curso, ter um filho. Todas essas experiências se convertem em itens desta lista de tarefas a que a vida se reduz. Ao mesmo tempo, observamos uma dificuldade de aprofundamento nessas experiências, que fica patente na dificuldade que temos em narrá-las.


Outro ponto importante a ser destacado é a relação que estabelecemos com o consumo. No nosso tempo o consumo impera como um verdadeiro elemento organizador da sociedade e como doador de sentido para a vida. Os itens da "lista de tarefas" podem ser melhor compreendidos através dessa lógica do consumo. Não são apenas os bens materiais que são super valorizados, mas as experiências de modo geral são reduzidas a objetos a serem consumidos. A depressão, como sintoma social, resiste à “fé na felicidade consumista” e não corresponde aos ideais contemporâneos de bem-estar.

Por fim, a relação de urgência e produtividade que nossa sociedade estabelece com o tempo contrasta com a experiência de tempo lentificado da depressão. Vivemos sob uma exigência constante de velocidade, apressados por deadlines, atrasados em acompanhar a velocidade vertiginosa das mudanças do mundo. Até aos atos mais corriqueiros do nosso cotidiano é imposta uma urgência e uma aceleração, que acabam por empobrecer nossa vida psíquica: "não temos tempo para Isso". A esse tempo acelerado, o depressivo resiste com seu sentimento de tempo estagnado, com seus movimentos lentos, com o sono excessivo.


A depressão pode ser compreendida como uma resposta a esse modo de vida contemporâneo e seus ideais. E ainda que vejamos um aumento considerável de casos, o sofrimento experimentado na depressão é solitário, incompreendido e objeto de julgamentos, exatamente porque confronta esses ideais a que estamos todos submetidos.








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