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  • Foto do escritorLaura Albernaz

Burnout

Um dos primeiros sinais que acendem um alerta para o burnout é o estresse crônico. Em sua relação com o trabalho, não é apenas um dia em que a pessoa puxa um pouco mais, ultrapassando seus limites e sente-se estressada. Pelo contrário, ela vai estabelecendo uma jornada e uma relação com o trabalho nos quais o estresse é parte integrante do seu cotidiano. O corpo responde a esse nível de exposição ao estresse diário através da queda da imunidade, das gripes e infecções de repetição, sinusites etc.

A sobrecarga e o estresse no trabalho fazem com que a pessoa, no seu tempo livre, não queira pensar em mais nada, deseje apenas um espaço em branco, que exija o mínimo de esforço mental, tal como as timelines, as séries e os programas de televisão. Essa forma de se recompor psíquicamente é compreensível se levarmos em conta a energia que está sendo drenada pelo trabalho, mas à médio prazo, esse mecanismo de lidar com o desgaste físico e emocional vai produzindo uma dificuldade de encontrar satisfação.

A preocupação e o cansaço produzidos pelo trabalho são tamanhos, que a pessoa vai se desligando das coisas que anteriormente lhe davam prazer, como por exemplo suas relações sociais, sua sexualidade, seus interesses pessoais. Quando não está no trabalho, a pessoa se sente incapaz de procurar atividades prazerosas, e precisa se desligar de tudo e de todos para conseguir fazer uma "descompressão". Muitas vezes as drogas lícitas e ilícitas participam da busca por descompressão (uma cerveja para relaxar, um remédio para dormir).

Nesse cenário, o prazer se torna uma fuga do desprazer. O prazer por cumprir toda uma lista de tarefas, por atingir uma meta de produção, o alívio pela chegada do final de semana são exemplos de prazeres que se configuram como fugas de desprazer.


A pressão no ambiente de trabalho e nas relações laborais desencadeiam também processos ansiosos. Diante de uma rotina estressante, a pessoa passa a tentar se antecipar as demandas, e começa a viver apartada de seu próprio tempo subjetivo. O ambiente de trabalho torna-se ansioso por contágio. A prática de avaliações regulares expressa nas mensagens "teste-se", "compare-se", "extraia o máximo de si", "saiba o seu valor agregado", "o que você acrescenta a esse projeto/ a essa reunião", são indutores de sofrimento no trabalho. Se a pessoa não consegue determinar seu valor de forma tangível, sente que pode ser desnecessária, ameaçada pelos próximos cortes, deixar de ser chamada para projetos futuros. O impulso de tentar tornar-se imprescindível, aumenta ainda mais a sobrecarga no trabalho. Ao mesmo tempo a mensagem dos mercados e do sistema neoliberal é a de que todos podem ser substituídos, provocando ainda mais angústia.


Esse percurso que envolve o estresse cotidiano nas relações de trabalho, o achatamento dos prazeres, a auto-cobrança, o aumento da ansiedade que se converte em estados depressivos é o que caracteriza uma crise de burnout. Para conseguir produzir, a pessoa precisa se separar de si mesma, deixar de sentir e se anestesiar, assumindo um estado robótico. No limite, a pessoa tem reações psicomotoras, crises de choro sem uma causa específica, reações gerais fora de contexto e chega num ponto em que não consegue mais realizar o seu trabalho.


O funcionamento da vida passa a ser um ciclo de pressão-descompressão, e o descanso que a pessoa tenta encontrar no seu tempo fora do trabalho acaba não sendo restaurativo. A própria vida vai sendo vivida como uma lista de tarefas, a pessoa deixa de se reconhecer como protagonista de sua história, produzindo um tipo de esgotamento que não cessa porque diz respeito ao modo de relação com a vida e com o mundo.

Burnout e Neoliberalismo


As técnicas de gestão do sistema neoliberal exploram o estresse induzido no trabalho para aumentar a produtividade. Desde a década de 70, estudos apontam que o sofrimento no ambiente de trabalho resulta num aumento da produtividade, e o capitalismo percebe que pode rentabilizar o sofrimento e transformá-lo em capital. A raiva produzida pela pressão sofrida no trabalho melhora o desempenho dos trabalhadores. Essas técnicas que produzem o sofrimento e o estresse no trabalho tem se tornado a regra nas relações laborais.

São muitas as práticas de gerenciamento que promovem o sofrimento. De um lado estão as técnicas de micro-gestão que trazem a sensação de controle permanente. Toda atividade feita pelo trabalhador deve ser indexada a uma tabela, que monitora e quantifica tudo que é feito. O trabalhador não tem nenhuma capacidade de decisão sobre os processos de seu trabalho. No polo oposto a inteira responsabilidade pelo processo produtivo é delegada ao trabalhador, que é cobrado pelos resultados. As técnicas que promovem a competição através de discursos como "quem se adiantar será premiado", "quem fizer horas extras receberá um bônus", "quem vestir a camisa será reconhecido pela empresa", assim como as métricas de avaliação permanente são outros exemplos.

Quem trabalha com serviços é particularmente afetado, porque os serviços podem demandar atividades que atravessam, a noite, a madrugada, os finais de semana e feriados. A tônica das relações de trabalho é: trabalhe mais e ganhe mais. O empregador, no sistema neoliberal, não se preocupa com o descanso e com a saúde do trabalhador. Ele terceiriza essa preocupação para o próprio trabalhador através dos processos de uberização.

O burnout é resultado desse ambiente de trabalho que explora o sofrimento e das relações laborais que os trabalhadores estabelecem.





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